Michel Fokine

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Michel Fokine (ou Mikhail Fokin) foi um bailarino e coreógrafo dos balés russos do início do século XX. Ficou conhecido principalmente por coreografar obras históricas como Les Sylphides e A Morte do Cisne, além de mudar os paradigmas da interpretação coreográfica.

Por ter uma formação multidisciplinar, fundada não só em dança mas também em música e em artes plásticas, foi pioneiro em sugerir uma relação mais integrada entre o bailarino, a música e o cenário, além de defender que o espetáculo de dança deveria não só realizar passos, mas explicar as paixões humanas. Sua filosofia foi resumida em cinco tópicos que foram publicados no jornal principal de Londres ficaram conhecidos como Os Cinco Princípios de Fokine.

Ele trabalhou com Sergei Diaghilev em sua companhia Ballets Russes e coreografou mais de oitenta obras.


Tabela de conteúdo

Biografia

Fokine como Chopin em Les Sylphides

Mikhail Mikhailovich Fokin (conhecido como Michel Fokine na transliteração francesa) nasceu em em 26 de abril de 1880 em São Petersburgo, Rússia. Ele foi a décima sétima dezoito crianças, apenas 5 das quais cresceram até a idade adulta. Seu pai, Mikhail Fokin, era um rico comerciante russo em São Petersburgo. Sua mãe, Catherine, era um imigrante da Alemanha.

Fokine foi aceito aos 9 anos de idade na Escola de Ballet Imperial de São Petersburgo e fez sua estréia nos palcos nesse mesmo ano no Teatro Mariinsky, no ballet The Talisman, sob a direção de Marius Petipa. Após a sua formatura em 1898, Fokine foi contratado no posto de solista com o Ballet Imperial Russo. Sua primeira apresentação como solista foi em Paquita (1898), como uma parceria com a famosa Anna Pavlova.
"Les Sylphides"

Além de ballet, ele estudou também piano e violino. Ele passou a dominar o bandolim e balalaika e juntou-se à pequena orquestra de cordas criada pelos músicos da Orquestra do Teatro Mariinsky. Após esse sucesso como instrumentista, ele foi convidado para se juntar à famosa orquestra de V. V. Andreiev, tudo isso enquanto ainda trabalhava como solista do Ballet Imperial. Ele passou também a transcrever, orquestrar e compor músicas. Durante os últimos anos de sua carreira coreográfica, ele regeu a orquestra ocasionalmente, enquanto seus ballets eram realizados no palco.

Sua outra grande paixão era a pintura. Tendo mostrado talento excepcional como aluno, estudou na escola de Dmitriev-Kavkasky onde os pupilos eram preparados para o ingresso na Academia de Artes.

Decepcionado com a vida artística de dançarino durante este período, ele considerava estes outros caminhos, até que em 1902 foi-lhe oferecido um cargo de professor na Escola de Ballet imperial. Isto não só complementava sua renda, mas deu-lhe a chance de explorar seus próprios pontos de vista da coesão artística e possibilidades coreográficas.

Fokine estava insatisfeito com a estagnação da coreografia tradicional, baseada em performances solo e dominada por gestos mímicos. A mera dança sobre uma música de fundo não era para ele. Suas novas idéias revolucionaram a dança clássica e se expandiram para além dos limites da escola tradicional. Fokine introduziu mudanças nos movimentos dos dançarinos ao atualizar os princípios de mímica, postura e gesto para liberar o movimento do corpo todo nos dançarinos.

"Danças Polovtsianas do Príncipe Igor"
"Cleópatra"

Em 1904, ele apresentou uma carta aos diretores do Teatro Mariinsky Imperial descrevendo a necessidade de reforma do ballet, a qual serviu de base para seus agora famosos cinco princípios. Segundo ele, "no lugar do dualismo tradicional, o ballet deve ter uma unidade completa de expressão, uma unidade que é composta por uma mistura harmoniosa entre três elementos: música, pintura artes plásticas. A dança deveria ser interpretativa. Ele não deveria degenerar em mera ginástica. Ele deveria explicar o espírito."

Esta foi a primeira de uma série de propostas que ele enviou aos funcionários do teatro, que, neste momento, ainda foram recebidos com indiferença.

Suas idéias revolucionárias são por vezes atribuída a outros, por isso, é interessante notar que os esforços acima foram feitos quatro anos antes de conhecer Diaghilev e 10 meses antes de Isadora Duncan aparecer pela primeira vez na Rússia.

Embora suas idéias não tenham sido aceitas pela administração conservadora do Teatro Imperial, ele passou a coreografar uma série de performances de alunos e eventos de caridade. Em sua parceira com Anna Pavlova, eles inspiraram um grupo de jovens seguidores, ganhando até mesmo a aprovação de Petipa, cuja visão artística ele estava rejeitando. Um desses grupos de apreciadores de arte era conhecido como 'Mir Iskusstva' (Mundo da Arte), tal como o príncipe Volkonsky, Alexandre Benois e Sergei Diaghilev. Entre os primeiros trabalhos de Fokine estavam a coreografia de Chopiniana (1903) (posteriormente revisto como Les Sylphides), Acis e Galatea (1905), e A Morte do Cisne (1907), esta última, sua mais famosa, realizada como uma dança solo de Anna Pavlova.

Mesmo após tudo isso, a administração do teatro ainda tinha dúvidas sobre as idéias de Fokine, julgando-as muito radicais. Eles iriam tentar restringir suas atividades e censurar suas reformas, quando, em 1908, Fokine foi apresentado pelo intelectual Alexandre Benois a Sergei Diaghilev, empresário e fundador da companhia Ballets Russes.

"Carnaval"
"Scheherazade"

Do encontro entre Fokine e Diaghilev nasceu enfim a oportunidade de implementar completamente suas idéias revolucionárias de uma dança harmoniosa com interação e reciprocidade entre os dançarinos e música. Mesmo antes de seu trabalho com Sergei Diaghilev, Fokin trouxe inovações ao gênero do balé clássico ao criar um novo formato de "balé de um ato". No entanto, para as produções dos Ballets Russes ele fez revisões e atualizações de suas idéias anteriores. Diaghilev propôs a Fokine trazer quatro de seus balés para Paris: Le Pavillon D'Armide, Cleopatre, as Danças Polovtsianas do príncipe Igor, e Les Sylphides (o primeiro ballet sem enredo), os quais compunham o primeiro Ballet Russes temporada no Teatro Chatelet, em 1909.

O ano de 1910 trouxe a criação de mais três obras-primas de Fokine: Carnaval, Scheherazade e The Firebird.

"Petrouchka"

Carnaval estreou no Pavlovsk Hall, em uma performance organizada pela revista Satyricon para a música homônima de Robert Schumann. No elenco original desta peça de commedia dell'arte, estava Vsevolod Meyerhold (membro fundador do Teatro de Arte de Moscou), como Pierrot. Dois meses depois, a peça seria apresentada em Berlim, com Vaslav Nijinsky no papel de Arlequim. Nesse ínterim, Fokine encontrou artistas simpatizantes, como Stanislavski, cujo trabalho muito apoiava suas idéias de como a pantomima do ballet devia ser transformada.

Scheherazade, produzida especificamente para a companhia de Diaghilev, tornou-se uma das apresentações de maior sucesso dos Ballet Russes, com design espetacular feito por por Bakst e coreografia exibindo um sentido completamente novo de forma e sexualidade. Para The Firebird (O Pássaro de Fogo), estrelado por sua esposa Vera Fokine, Michel escreveu um libretto baseado em um conto de fadas russo e colaborou com ele um dos maiores compositores do século, Igor Stravinsky, compondo sua primeira trilha de balé. Todos esses ballets foram o principal evento da temporada de 1910 dos Ballet Russes na Ópera de Paris.

"O Pássaro de Fogo"

No ano seguinte, a companhia voltou para o Chatalet, onde Fokine criou Narcisse, Sadko e um ballet íntimo, que assegurou o caráter lendário de sua estrela. Spectre de la Rose se tornou uma das imagens mais marcantes de Nijinsky. O outro importante trabalho de 1911 foi uma segunda colaboração com Stravinsky, Petrouchka, uma peça de teatro única em sua utilização de ballet como um meio de contar uma história simbólica dentro de um ambiente real. Petrouchka se destaca como uma das maiores conquistas da Fokine.

Fokin também coreografou Daphnis e Chloe (1912), de Maurice Ravel, e Le coq d'or (O Galo de Ouro, 1914) sobre a música de Nikolai Rimsky-Korsakov.

Vera Fokine em "A Morte do Cisne"

A colaboração recíproca entre Michel Fokine com Sergei Diaghilev chegou ao fim em 1914. Fokine terminou seu conturbado relacionamento porque estava incomodado com a estreita relação de Diaghilev com Vaslav Nijinsky. Em 1914 Fokine retornou à Rússia e viveu lá até 1918. Em 1919 ele se mudou para Nova York e fundou sua própria escola de balé. Durante a década de 1930, Fokin percorreu o mundo com o ballet russo de Covent Garden, e criou o ballet Paganini para definir a música de Sergei Rachmaninoff.

Sua última criação de Ballet foi Helena de Tróia. Enquanto ensaiava a companhia na Cidade do México, ele desenvolveu uma trombose na perna. Até ele chegar em Nova York, a trombose já tinha se convertido em pleurisia, que se transformou em pneumonia dupla. Ele morreu em 22 de agosto de 1942. Em homenagem à sua partida, dezessete companhias de balé do mundo realizaram Les Sylphides simultaneamente. Quando pediram a seu querido amigo Rachmaninov para comentar sobre a morte de Fokine, ele afirmou que "agora todos os gênios estavam mortos."

Sua esposa Vera Fokine continuou ensinando no estúdio de Fokin em Nova York. Miniaturas coreográficas de Fokine ainda são realizados por muitas companhias de ballet do mundo todo.

A Filosofia de Michel Fokine

Michel Fokine poderia ser descrito como um homem renascentista. Além de ser um dos melhores dançarinos de sua geração, ele era pintor, músico, filósofo e intelectual. Foi com este pano de fundo que ele começou a criar uma revolução na dança: as reformas radicais que ele tentou introduzir em 1904, e teve sucesso em trazer em 1914, são ilustradas pelos seus artigos sobre o assunto, enviadas para a direção do Teatro Mariinsky, divulgadas no site oficial do Fokine Estate Archive, e transcritas abaixo.

"A dança não deveria ser um mero divertimento, introduzida na pantomima. No ballet todo o significado da história pode ser expresso pela dança. Acima de tudo, a dança deveria ser interpretativa. Ele não deveria degenerar em mera ginástica. Ela deve, na verdade, ser a palavra plástica. A dança deve explicar o espírito dos atores no espetáculo. Mais do que isso, ela deve expressar toda a época à qual pertence o objeto do ballet.

Para tal interpretação de dança, a música deve ser igualmente inspirada. No lugar das valsas dos velhos tempos, polcas, pizzicatos e galopes, é necessário criar uma forma de música que expressa a mesma emoção como aquela que inspira os movimentos dos bailarinos. A harmonia que estas danças deve ter com o tema, o período e o estilo, exige um novo ponto de vista em matéria de decoração e figurino. Já não se exigem as eternas saias curtas, collants cor de rosa e sapatilhas de cetim. Pode-se dar lugar à liberdade de fantasia artística.

O ballet não deve mais ser feito de 'números', 'entradas', e assim por diante. Ele deve mostrar uma concepção com unidade artística. A ação do ballet nunca deve ser interrompida para que a dançarina responda aos aplausos do público.

No lugar do tradicional dualismo, o ballet deve ter unidade completa de expressão, uma unidade que é composta de uma mistura harmoniosa de três elementos: música, pintura e arte plástica.

O grande, a excelente característica do novo ballet é que no lugar de truques de acrobacia projetados para atrair aplausos, e entradas formais e pausas feita exclusivamente para causar efeito, não deve haver nada além de uma coisa: a aspiração pela beleza.

Através dos ritmos do corpo, o ballet pode encontrar expressão para suas idéias, sentimentos e emoções. A dança tem a mesma relação com o gesto que a poesia tem com a prosa. A dança é a poesia do movimento.

Assim como a vida é diferente em diferentes épocas, e os gestos são diferentes entre os seres humanos, também a dança que expressa a vida deveria variar. A dança egípcia do tempo dos faraós era diferente da dança dos marqueses do século XVIII. A ardente dança espanhola e o morador fleumático do norte não só falam línguas diferentes, mas usam gestos diferentes. Estas danças não são inventados. Eles são criados pela própria vida."

Os Cinco Princípios de Fokine

Como publicados no jornal The London Times, em 1914:

1 - Ao invés de criar um espetáculo formado por combinações de passos de dança prontos e estabelecidos, procurar criar em cada caso uma nova maneira de corresponder ao assunto, a maneira mais expressiva para representar o período e o caráter da nação representada - esta é a primeira regra do novo ballet.

2 - A segunda regra é que a dança e o gesto mimético não têm significado em um balé, a menos que eles sirvam como uma expressão de sua ação dramática, e não devem ser usados como um mero divertimento ou entretenimento, não tendo nenhuma ligação com todo o esquema do ballet.

3 - A terceira regra é que o novo ballet admite o uso de gestos convencionais apenas quando ele for requisitado pelo estilo do ballet, e em todos os outros casos deve se esforçar para substituir gestos das mãos por movimentos miméticos de todo o corpo. Os bailarinos devem ser expressivos da cabeça aos pés.

Michel Fokine and his Ballets, por Cyril W. Beaumont.

4 - A quarta regra é a expressividade de grupos e dança em conjunto. Nos balés antigos, os dançarinos eram elencados em grupos apenas por uma questão de ornamento, e o mestre de ballet não estava preocupado com a expressão de quaisquer sentimentos em grupos de personagens ou em danças conjuntas. O novo balé, por outro lado, ao desenvolver o princípio da expressividade, avança da expressão do rosto para a expressão do corpo todo, e da expressividade de um corpo individualmente para a expressividade de um grupo de bailarinos e da dança conjunta de todos os corpos dançantes.

5 - A quinta regra é a aliança da dança com as outras artes. O novo balé, recusando-se a ser escravo da música ou da decoração cênica, e reconhecendo a aliança das artes apenas em condição de completa igualdade, permite a perfeita liberdade tanto para a cena artística quanto para o músico. Em contradição com o antigo balé, ele não demanda do compositor uma "música de balé" como acompanhamento para a dança: ele aceita música de todos os tipos, desde que seja uma música boa e expressiva. Ele não demanda do artista cênico que ele arrume as bailarinas em saias curtas e sapatilhas rosa. Ele não impõe nenhum tipo de "condição de balé" ao compositor nem ao artista decorativo, mas proporciona completa liberdade às suas potências artísticas.

Referências

BEAUMONT, Cyril W. - Michel Fokine and his Ballets. Dance Horizons, 1981.

CAMINADA, Eliana. História da Dança - Evolução Cultural. Rio de Janeiro: Sprint, 1999

[1] Página oficial do FEA (Fokine Estate Archive), organização que detém os direitos autorais sobre a obra de Fokine.

[2] Biografia de Fokine no site do IMDB (Internet Movie Database)

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